Ao longo desta série, vimos que Schedule não é apenas uma espessura de catálogo.
Ele é o resultado final de um sistema coerente formado por três pilares:
- Projeto – calcula a espessura mínima necessária
- Material – garante propriedades mecânicas e metalúrgicas
- Dimensão – limita as espessuras disponíveis no mercado
Neste último capítulo, entramos no pilar mais determinante de todos: os códigos de projeto ASME B31.
São eles que transformam pressão, temperatura, fluido e material em uma espessura mínima calculada.
O Schedule só aparece depois disso.

O papel dos códigos ASME B31
Os códigos ASME B31 não são normas de fabricação nem tabelas dimensionais.
Eles são códigos de projeto, responsáveis por definir:
- critérios de cálculo da espessura mínima;
- tensões admissíveis dos materiais;
- fatores de segurança;
- classes de serviço;
- requisitos de fabricação, inspeção e teste do sistema como um todo.
Em outras palavras:
A ASME B31 não escolhe o tubo. Ela diz qual tubo é necessário.
Dentro das indústrias de bioprocesso, três códigos se destacam: B31.1, B31.3 e B31.9.
ASME B31.1 — Power Piping
A ASME B31.1 é aplicada a sistemas de geração e distribuição de energia, com destaque para:
- vapor de alta e média pressão;
- água de alimentação de caldeiras;
- condensado;
- utilidades energéticas em plantas industriais.
É um código conservador, com:
- margens de segurança mais elevadas;
- forte foco em integridade mecânica;
- histórico ligado a usinas térmicas e sistemas críticos.
Na prática industrial, sempre que o vapor é o fluido dominante, a B31.1 costuma ser a referência principal.
ASME B31.3 — Process Piping
A ASME B31.3 é, sem dúvida, o código mais utilizado em plantas industriais de processo.
Ela se aplica a:
- fluidos químicos;
- alimentos e bebidas;
- bioprocessos;
- utilidades de processo;
- gases, líquidos e misturas em ampla faixa de pressão e temperatura.
Seu grande diferencial é a flexibilidade técnica, pois:
- permite diferentes categorias de fluido;
- adapta fatores de segurança ao risco do serviço;
- integra cálculo, fabricação, soldagem, inspeção e teste.
Por isso, a B31.3 é o código mais comum quando falamos de:
- aço inox,
- tubos Schedule,
- integração com ASTM A312,
- uso conjunto com ASME B36.10 e B36.19.
ASME B31.9 — Building Services Piping
A ASME B31.9 é menos conhecida, mas extremamente relevante em ambientes industriais.
Ela se aplica a:
- utilidades prediais;
- água potável;
- ar comprimido;
- vapor de baixa pressão;
- serviços auxiliares dentro de edifícios industriais.
Seu foco não é processo crítico, mas segurança, simplicidade e padronização.
Características importantes:
- pressões e temperaturas mais baixas;
- critérios de cálculo simplificados;
- ampla aplicação em instalações industriais internas.
Em muitas plantas, a B31.9 convive lado a lado com a B31.3:
- processo → B31.3
- utilidades prediais → B31.9
Como o cálculo se conecta ao Schedule
Aqui está o ponto-chave que fecha toda a série.
O fluxo correto de especificação é sempre:
- ASME B31 (projeto)
→ calcula a espessura mínima requerida com base em:- pressão,
- temperatura,
- fluido,
- material,
- tensões admissíveis.
- ASTM (material)
→ garante que o tubo fornecido tenha:- resistência mecânica,
- qualidade metalúrgica,
- integridade da solda.
- ASME B36 (dimensional)
→ define quais espessuras padronizadas (Schedule) existem para aquele diâmetro.
O engenheiro então escolhe o Schedule imediatamente acima da espessura calculada.
Schedule não nasce da norma dimensional.
Ele nasce do cálculo.
Um erro comum e perigoso
Um dos erros mais frequentes em projetos é inverter essa lógica:
- escolher primeiro o Schedule,
- depois “ver se passa no cálculo”.
Esse atalho pode resultar em:
- tubulação subdimensionada,
- excesso de custo,
- ou não conformidade normativa.
Os códigos ASME B31 deixam claro: o cálculo vem antes da escolha do schedule
Conclusão
Ao longo desta série, construímos o caminho completo para entender o que realmente está por trás de um tubo Schedule — sem atalhos e sem “padrões de catálogo”.
Começamos pela origem e significado do Schedule, depois entramos nas normas dimensionais (ASME B36.10 e B36.19), deixando claro que elas definem diâmetros e espessuras disponíveis, mas não escolhem o tubo por você.
Em seguida, passamos pelas normas de fabricação (ASTM A312, A409 e A778), mostrando que dois tubos com o mesmo diâmetro nominal e Schedule podem ter exigências e aplicações bem diferentes. E agora fechamos este capítulo com o pilar do projeto, onde a família ASME B31 aparece como a referência que transforma requisitos de processo em requisitos de engenharia.
E aqui fica a hierarquia que amarra tudo:
1. A ASME B31 define o que o projeto precisa (espessura mínima segura para aquela condição de serviço).
2. ASTM define o que o tubo é (material, fabricação e integridade),
3. A ASME B36 define o que existe (dimensões e schedules disponíveis),
Entender essa lógica é o que transforma um “tubo Schedule” em uma tubulação corretamente especificada — técnica, segura e responsável.
No próximo artigo, vamos sair do conceito e entrar na prática: vamos abrir a ASME B31.3 e mostrar, passo a passo, como se calcula a espessura mínima de projeto — desde pressão, temperatura e fluido, passando pela influência do material conforme ASTM A312, até chegar na escolha final do Schedule nas tabelas ASME B36.10 / B36.19.