Depois de entender o que é um tubo Schedule, sua origem histórica e por que ele não representa pressão, surge a próxima pergunta natural:
Se o Schedule não define pressão nem aplicação, então quem define o quê em uma tubulação industrial?
A resposta está na integração entre três grandes grupos normativos, que juntos formam um sistema coerente de especificação.
Ignorar essa conexão é um dos principais motivos de erros de projeto, superdimensionamento ou uso inadequado de materiais.
Neste post, vamos organizar esse “quebra-cabeça” de forma clara.

Os três pilares da especificação de tubulações
Toda tubulação industrial corretamente especificada se apoia em três pilares normativos distintos, cada um com uma função bem definida:
- Normas dimensionais → definem o que existe geometricamente
- Normas de fabricação → definem como o tubo é produzido
- Códigos de projeto → definem o que é necessário para a aplicação
Nenhum deles, isoladamente, é suficiente.
Normas dimensionais: ASME B36.10 e ASME B36.19
As normas ASME B36 são responsáveis por definir as dimensões padronizadas dos tubos, principalmente:
- diâmetro externo (OD),
- espessura de parede,
- e a classificação por Schedule.
ASME B36.10
Aplica-se principalmente a tubos de aço carbono e ligas, como:
- ASTM A106,
- ASTM A53,
- ASTM A105 (em alguns contextos).
ASME B36.19
É específica para tubos de aço inoxidável, introduzindo os Schedules “S”:
- 5S, 10S, 40S, 80S, etc.
Essas normas não falam de pressão, fluido ou aplicação.
Elas respondem apenas à pergunta:
Quais dimensões e espessuras estão disponíveis para cada diâmetro nominal?
Importante:
ASME B36 define a geometria, não o desempenho.
Para diâmetros superiores a 12” podemos ter diferença entre as duas normas.
Normas de fabricação: ASTM A312, A778 e A409
Se as normas dimensionais dizem qual é o tamanho, as normas ASTM dizem como o tubo deve ser fabricado.
ASTM A312
É a norma mais utilizada para tubos Schedule em aço inox destinados a:
- serviço sob pressão,
- altas temperaturas,
- aplicações químicas e industriais.
Ela define:
- composição química,
- propriedades mecânicas,
- tratamento térmico,
- ensaios (hidrostático ou não destrutivo),
- condição de fornecimento.
ASTM A778
Aplica-se a tubos soldados de aço inox para:
- aplicações estruturais ou de baixa pressão,
- onde não há exigência formal de cálculo de pressão.
É comum em:
- suportes,
- estruturas,
- serviços auxiliares.
ASTM A409
Voltada a tubos de aço inox ferrítico (ex.: AISI 409),
muito usados em:
- sistemas de exaustão,
- aplicações de menor custo,
- ambientes de temperatura moderada.
Importante:
As normas ASTM não definem o Schedule
Elas assumem que a geometria já foi definida pela ASME B36
O foco aqui é qualidade metalúrgica e método de fabricação
Códigos de projeto: ASME B31
O terceiro pilar — e o mais crítico — são os códigos de projeto, representados pelas diversas partes da ASME B31, como:
- ASME B31.1 – Power Piping
- ASME B31.3 – Process Piping
- ASME B31.8 – Gas Transmission and Distribution Piping
- ASME B31.9 – Building Services Piping
Esses códigos são os responsáveis por calcular a espessura mínima necessária da tubulação, considerando:
- pressão de operação,
- temperatura,
- fluido,
- material,
- corrosão,
- categoria de serviço,
- fatores de segurança.
É aqui que entram equações derivadas da resistência dos materiais (como Barlow), mas aplicadas de forma normativa e segura.
Importante:
A ASME B31 não escolhe o Schedule diretamente
Ela calcula uma espessura mínima requerida
O engenheiro então seleciona o próximo Schedule disponível conforme ASME B36
Como essas normas se conectam na prática
O fluxo correto de especificação funciona assim:
1. O código de projeto (ASME B31) calcula a espessura mínima necessária
2. A norma de fabricação (ASTM) garante que o tubo produzido atenda aos requisitos mecânicos e metalúrgicos
3. A norma dimensional (ASME B36) limita as opções de espessura disponíveis
Ou, de forma resumida:
o código calcula > a norma garante > a tabela limita
Quando esse encadeamento é respeitado, o Schedule deixa de ser uma escolha “por hábito” e passa a ser uma decisão técnica consciente.
Onde surgem os erros mais comuns
Na prática industrial, muitos erros vêm de atalhos como:
- escolher o Schedule “padrão da planta” sem cálculo,
- confundir norma dimensional com norma de fabricação,
- usar Schedule como substituto de análise de pressão.
Esses atalhos funcionam até o dia em que não funcionam mais.
Conclusão
O tubo Schedule é apenas uma peça dentro de um sistema maior.
Ele só faz sentido quando interpretado dentro da lógica correta das normas.
- ASME B36 define o tamanho,
- ASTM define como fabricar,
- ASME B31 define o que a aplicação exige.
Entender essa conexão é o que separa a especificação baseada em hábito da engenharia de processo bem fundamentada.
No próximo post, vamos aprofundar individualmente cada um desses pilares — começando pelas normas dimensionais ASME B36.10 e B36.19 — para mostrar o que realmente muda entre aço carbono e aço inox no mundo dos tubos Schedule.
Posts Relacionados
O que é o tubo Schedule? Sua origem e significado