Seção 304.3.1 e 304.3.2
No post anterior da série, vimos como curvas em tubulações são tratadas pelo código ASME B31.3: o cálculo da espessura continua sendo o do tubo reto, mas a verificação passa a considerar a espessura mínima após a deformação.
Agora avançamos um passo além.
Quando o tubo deixa de ser apenas curvado e passa a ser perfurado, surge um novo desafio estrutural. É exatamente esse cenário que o item 304.3 do ASME B31.3 aborda: as derivações (Branch Connections).
Antes de qualquer cálculo, o código deixa claro que nem toda derivação exige análise de reforço — e que nem todo método simplificado é válido para qualquer geometria. Entender isso é o primeiro passo para projetar corretamente.
O que o ASME B31.3 chama de “derivação”
No contexto do código, uma derivação é qualquer conexão que cria uma linha secundária a partir de um tubo principal, seja por meio de:
- tees
- repuxos (extruded outlets)
- bocas de lobo (stub-in / stub-out)
- conexões de derivação comerciais
- luvas soldadas diretamente no tubo principal
O ponto comum entre todas elas é simples:
Para existir uma derivação, é necessário remover material do tubo principal.
E remover material significa, inevitavelmente, reduzir a capacidade resistente da tubulação.

O princípio estrutural por trás do 304.3
O item 304.3.2 deixa isso explícito:
Um tubo com derivação é enfraquecido pela abertura necessária para sua execução.
Se a espessura da parede não for suficiente para suportar a pressão, é obrigatório fornecer reforço.
Essa frase resume toda a lógica do capítulo:
- a pressão interna continua a mesma
- o tubo perde área resistente
- o projeto precisa compensar essa perda
A diferença entre os tipos de derivação está em como essa compensação é feita — ou se ela já está embutida no componente.
Derivações que dispensam cálculo de reforço
O código permite, sem qualquer cálculo, assumir que a derivação possui resistência adequada quando ela é feita com:
a) Conexões normalizadas e listadas
Como:
- tees conforme ASME B16.9 ou ASME B16.11
- conexões de derivação conforme MSS SP-97
Nesses casos, o reforço já faz parte do próprio componente, e sua capacidade estrutural foi qualificada por norma.

b) Luvas e meias-luvas soldadas (com limites)
Também é dispensado cálculo quando a derivação é feita com:
- luva rosqueada ou de solda por encaixe
- meia-luva listada
- soldada diretamente no tubo principal
Desde que todas as condições abaixo sejam atendidas:
- o diâmetro da derivação (Db) não exceda 2″ (DN 50)
- o diâmetro da derivação (Db) não seja maior que 1/4 do diâmetro do tubo principal (Dh)
- a luva tenha classe mínima 3000 (ASME B16.11)
- a espessura mínima da luva (Tb), na zona de reforço, não seja inferior à do tubo de derivação (Th)
Fora desses limites, o cálculo volta a ser obrigatório.

Quando o método simplificado do código é válido
Mesmo quando o cálculo é exigido, o ASME B31.3 impõe limitações geométricas claras para que os métodos dos itens 304.3.3 e 304.3.4 sejam aplicáveis.
De forma resumida, o método simplificado só é válido quando:
- a razão diâmetro/espessura do tubo principal (Dh/Th) é menor que 100
- a razão entre o diâmetro da derivação e o do tubo principal (Db/Dh) não excede 1,0
- o ângulo entre os eixos é maior que 45°
- o eixo da derivação intercepta o eixo do tubo principal

Essas condições não são arbitrárias. Elas garantem que:
- o estado de tensões seja previsível
- o reforço possa ser avaliado por área equivalente
- o comportamento estrutural permaneça dentro das hipóteses do código
Quando o código exige qualificação especial
Se qualquer uma dessas condições não for atendida, o recado do código é direto:
O projeto de pressão deve ser qualificado conforme o item 304.7.2.
Isso significa sair do método prescritivo e entrar em:
- análise detalhada
- ensaios
- ou métodos alternativos de validação
Em outras palavras: o código não proíbe — mas também não simplifica.
Por que este post vem antes dos cálculos
Antes de calcular boca de lobo ou repuxo, o engenheiro precisa responder a três perguntas fundamentais:
- Essa derivação realmente precisa de cálculo?
- O método simplificado do código é válido para essa geometria?
- Estou tratando um componente qualificado ou uma fabricação em campo?
O erro mais comum em projetos de tubulação não é errar a conta — é aplicar o cálculo errado a um caso onde ele não se aplica.
Conclusão
O item 304.3 do ASME B31.3 não começa com fórmulas.
Ele começa com critérios, limites e responsabilidade de projeto.
Entender o que:
- dispensa cálculo
- exige cálculo
- ou exige qualificação especial
é o que separa engenharia de repetição mecânica de normas.
Nos próximos posts da série, entraremos nos dois grandes métodos de cálculo previstos pelo código:
- 304.3.3 – Reforço de derivações soldadas (boca de lobo)
- 304.3.4 – Reforço de derivações por repuxo (extruded outlets)
A partir daí, os números finalmente entram em cena — mas sobre uma base conceitual sólida.
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