No post anterior discutimos as diferentes estratégias de fabricação, que variam conforme o tipo de produto — sob medida, padronizado ou misto. Vimos que essas escolhas têm impacto direto na forma como as empresas se estruturam, não apenas em termos de métodos de produção, mas também na forma de organizar pessoas, funções e responsabilidades.
Neste post, vamos explorar como o ciclo de vida do produto influencia a estrutura organizacional, e como diferentes estágios de desenvolvimento de um produto (introdução, crescimento, maturidade e declínio) exigem diferentes arranjos para garantir eficiência, qualidade e competitividade.

O Ciclo de Vida do Produto e a Estrutura Organizacional
Quando um produto é lançado, ele normalmente é produzido em pequena escala e em grande variedade. O foco está na customização e no reconhecimento pelo público-alvo. A estratégia de marketing, nesse momento, pode incluir preços agressivos para facilitar a penetração no mercado. Conforme o produto é aceito e ganha volume de vendas, é possível ajustar a precificação e planejar sua evolução para atender melhor o mercado.
Esse ciclo também afeta a forma como a empresa se organiza internamente. No estágio inicial, a organização tende a se estruturar com foco em processos, pois a variedade é alta e os produtos são sob medida. Na medida em que o produto amadurece, a produção se padroniza e o volume aumenta, tornando mais eficiente uma estrutura organizacional focada no produto. Entre esses dois extremos, é comum adotar uma estrutura mista.
Estrutura Organizacional Focada em Processos
Esse modelo é ideal para empresas que produzem itens sob encomenda, com baixa quantidade e alta variedade.
No nível mais operacional, temos os supervisores especialistas, cada um responsável por uma função específica: usinagem, soldagem, pintura, montagem etc. Esses supervisores garantem o uso eficiente dos recursos materiais, humanos e de máquinas.
No nível intermediário, entram os gerentes de função: compras, controle de materiais, PCP, fabricação, qualidade, manutenção. Eles fazem a ponte entre as operações e a alta gestão, assegurando que a estratégia da empresa seja desdobrada em cada área.
Na parte superior da estrutura está a alta gestão: gerente da planta e os departamentos de apoio como engenharia de produto, marketing, finanças e RH. A engenharia de produto, nesse caso, ocupa posição de destaque, pois os produtos exigem alta especificação e atendimento rigoroso aos requisitos do cliente.
Esse modelo valoriza a especialização funcional e a centralização das decisões. Tem como benefício o controle técnico detalhado dos processos, mas pode apresentar dificuldades de integração entre as funções, afetando prazos e sinergia.
Estrutura Organizacional Focada em Produtos
Com o aumento do volume e a padronização da produção, entra em cena a estrutura por produto. Cada produto ou linha de produto passa a ter um gerente dedicado, com responsabilidades diretas sobre fabricação, qualidade, PCP e programação.
A alta gestão permanece similar à anterior (gerente geral, engenharia de produto, finanças, marketing, RH). No entanto, abaixo do gerente da planta surgem os gerentes de produto (A, B, C etc.), cada um com autonomia para conduzir sua linha.
Os supervisores continuam existindo, mas agora estão subordinados aos gerentes de produto. Isso reduz conflitos entre departamentos funcionais e permite foco total na performance daquela linha de produto.
Esse tipo de estrutura promove agilidade, flexibilidade e foco no cliente. É ideal para produções em massa, onde o volume e a repetição são altos.
Estrutura Mista ou Matricial
Quando a empresa lida com uma variedade moderada de produtos e um volume intermediário de produção, adota-se uma estrutura híbrida, chamada estrutura matricial.
Nela, coexistem gerentes funcionais (como na estrutura por processo) e gerentes de produto ou projeto. Ambos têm responsabilidades sobre a mesma equipe, exigindo uma coordenação mais fina e habilidades interpessoais.
Essa estrutura busca o equilíbrio entre especialização e foco no resultado final. É comum em empresas de engenharia, tecnologia ou com portfólio diversificado.
Alinhando Estrutura à Estratégia de Fabricação
A escolha da estrutura organizacional não é estática. Ela deve estar alinhada com a estratégia de fabricação, que por sua vez depende do estágio do ciclo de vida do produto:
- Produtos sob encomenda: estrutura por processo.
- Produtos padronizados para estoque: estrutura por produto.
- Produtos em transição ou com mix variado: estrutura mista.
Compreender essa relação é essencial para garantir que os recursos da empresa estejam bem distribuídos e que a operação consiga responder às demandas do mercado.
Conclusão
O tipo de estrutura organizacional adotada por uma empresa não deve ser decidido apenas com base na tradição ou na facilidade de implementação. Ela precisa refletir a estratégia do negócio, a fase do produto e as exigências do mercado.
Na prática, muitas empresas transitam entre essas estruturas ao longo do tempo, adaptando-se conforme os produtos evoluem. Cabe à engenharia industrial apoiar esse processo de forma crítica e sistemática, oferecendo análises que sustentem decisões organizacionais mais inteligentes.
Afinal, a organização é uma engrenagem fundamental para transformar ideias em valor.
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